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21 de abril de 2021

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Em 1919 a editora londrina George G. Harrap & Co. lanรงou uma antologia de contos de Edgar Allan Poe, que ร quela altura jรก era reconhecido como o pai das histรณrias de suspense e mistรฉrio. 

A ediรงรฃo, porรฉm, nรฃo se limitava a reproduzir as narrativas: luxuosa, ela foi ilustrada pelo irlandรชs Harry Clarke (1889-1931). ร‰ exatamente essa ediรงรฃo que o selo Tordesilhas lanรงa no Brasil, mas com um precioso acrรฉscimo: posfรกcio de Charles Baudelaire (1821-1867), primeiro tradutor de Poe para o francรชs e a reconhecer a genialidade do escritor norte-americano.

Estrelas: 5/5 ⭐⭐⭐⭐⭐Editora: Tordesilhas Ediรงรฃo: 1ยช ediรงรฃo (1 abril 2012) Idioma: Portuguรชs Capa dura: 424 pรกginas

4 de novembro de 2020

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Jรก estava entardecendo, mas eu ainda conseguia ver o jardim. Despertei em meio a uma paisagem natural, um bosque com trilhas, รกrvores e pedras ao redor, o meu olhar se perdia por entre pinheiros, bรฉtulas, tรญlias, carvalhos que pareciam ter sรฉculos de idade e salgueiros com seus ramos longos e pendentes.

Ao meu redor vรกrios arbustos, veigelas floridas se destacavam fazendo o contorno dos troncos das รกrvores, hortรชnsias, narcisos, violetas, jasmins, gerรขnios, sรกlvias-vermelhas, lavandas, margaridas, verbenas e camรฉlias adornavam um lago coberto por ninfeias e vitรณrias-rรฉgias, alรฉm de muitos outros elementos que cresciam sem nenhuma intervenรงรฃo humana. Ao levantar, notei estar cercado por esculturas de gesso, estranhas estรกtuas de homens e mulheres velhos, vestiam roupas comuns, um menino com uma boina e sapatos gastos, uma menina de vestido, tinha lรกgrimas escorrendo pelo rosto e se agarrava a uma boneca, todos pareciam ter uma expressรฃo de profunda tristeza e sofrimento.

Olhando a paisagem percebi uma coisa, nรฃo me lembrava de como tinha chegado atรฉ este lugar, de ter saรญdo para caminhar, passado pelas รกrvores e de me deitar em meio a clareira. Quando fiquei totalmente desperto, nรฃo via ou ouvia nenhum animal, em meio a tantas flores nรฃo escutava abelhas zumbindo, besouros ou grilos voando sobre as folhas, nem mesmo aranhas tecendo suas emaranhadas teias e no lago nรฃo havia peixes, sapos ou salamandras, nem mesmo libรฉlulas danรงavam na superfรญcie da รกgua.

Parei um pouco para reorganizar as ideias, busquei olhar mais ร  frente, para o horizonte, talvez assim conseguisse me localizar alรฉm do bosque, olhava para cima, nรฃo sabia a hora exata, mas naquele momento o cรฉu รฉ uma aquarela de infinitas cores. Um vislumbre ver sol e lua ao mesmo tempo, a dama de prata surgindo ao leste, o sol jรก se pondo ao oeste e para o meu contentamento, embaixo do cรญrculo dourado que estava ficando com tons de laranja e vermelho, estava a silhueta gigantesca de uma construรงรฃo, primeiro monumento feito pelo homem que avistava em meio a natureza.
Eu provavelmente devia ter vindo de lรก, pois nรฃo conseguia identificar nenhuma outra edificaรงรฃo em nenhuma outra direรงรฃo. Talvez, ao me afastar demasiadamente da casa, eu tenha parado para descansar, caรญdo em sono profundo e conseguido despertar apenas ao entardecer.

Mesmo aliviado por ter para onde ir e seguir a diante pelo caminho da alameda, fui tomado por um sentimento de tensรฃo, a cada passo dado, sentia como se alguรฉm ou alguma coisa me observasse, tentava nรฃo alimentar essa sensaรงรฃo pois nรฃo havia ser neste lugar que caminhasse alรฉm de mim, nรฃo havia vida humana neste bosque alรฉm da minha. Deixei os temores de lado e comecei a andar para alcanรงar a casa, pelo tamanho monumental do contorno que ela projetava no horizonte parecia ser uma mansรฃo com muitos cรดmodos.
Segui andando, mas, algo peculiar acontecia, apesar de caminhar bastante e de sentir o tempo passar, nรฃo parecia nem um pouco que tinha me aproximado da casa, sua posiรงรฃo era a mesma, ao olhar para o cรฉu, o sol ainda nรฃo tinha se posto, o tom alaranjado e vermelho jรก estavam me deixando nervoso, a lua nรฃo chegou no seu apogeu, o vรฉu da noite nรฃo cobriu o cรฉu, tรฃo pouco trouxe a resplandescรชncia das outras estrelas. O cรฉu que contemplei com tamanha admiraรงรฃo hรก pouco tempo, era o mesmo que naquele instante me deixava incomodado e aflito.
A paisagem antes exuberante que me despertava atenรงรฃo tambรฉm jรก estava perdendo o seu brilho, pois seguia incessantemente e nada parecia mudar, as mesmas flores, a mesma trilha. Percebi algo perturbador, o lago nรฃo tinha borda, nรฃo enxergava caminho para chegar atรฉ a margem, naquele espaรงo sรณ existia escuridรฃo.
Nรฃo tinha como eu estar andando em cรญrculos, a estrada nรฃo fazia curvas, a casa, ou seja, lรก o que aquilo fosse, continuava no horizonte, sol e lua ganharam um aspecto detestรกvel de minha parte, nรฃo se moveram nem por um momento de seus lugares, eles, juntamente com as estรกtuas, flores e รกrvores eram privilegiadas ao assistirem a minha caminhada desafortunada.
Por um tempo fiquei sem saber o que fazer, nรฃo sabia se pernoitava no caminho e continuava na manhรฃ seguinte, com a luz do dia para me guiar ou se continuava dessa forma, caminhando sem chegar a lugar algum. De repente pensei na possiblidade de passar a noite aqui, mesmo que nรฃo tivesse visto nada que pudesse ameaรงar a minha vida, tinha essa sensaรงรฃo horrรญvel e sufocante, o ar denso, sem vento, junto as estรกtuas me observando, devia ser ainda pior na escuridรฃo e no silรชncio da madrugada. Decidi entรฃo ir caminhando, mesmo indo devagar pela trilha era melhor do que ficar parado.
No fim de tarde รฉ costume ventos do leste abrandarem o calor, mas, nem mesmo uma brisa balanรงava as รกrvores, pareciam feitas de pedra, seriam mais bonitas com o farfalhar das folhas, com o cantar dos pรกssaros em seus galhos, com o voo de joaninhas e borboletas pelas plantas, mas, nada acontecia, sentia um enorme cansaรงo, mesmo achando que adormeci por vรกrias horas, minhas forรงas se dissipavam.
O estado em que as coisas se encontravam era tรฃo bizarro que fiquei sem tomar nenhuma atitude relevante alรฉm de caminhar, tinha perdido a noรงรฃo do tempo, caminhava como se fosse uma missรฃo a realizar, uma sentenรงa a cumprir, por um momento me sentia conformado, mas, isso mudara em um instante, pois mais ร  frente, o medo voltou a tomar meu corpo, o sentimento de pavor tomava a minha mente por completo, notava alguรฉm muito prรณximo de mim e tive a nรญtida impressรฃo de ter sido tocado, de sรบbito me virei para trรกs como se algo estivesse lรก, mas nรฃo havia ninguรฉm, olhava para os lados, procurando alguรฉm ร  espreita, mas, nada. Os รบnicos olhos alรฉm dos meus eram os das estรกtuas, a mais prรณxima era de uma crianรงa, uma menina de vestido, sapatilhas e tranรงas no cabelo, com o rosto voltado para cima, olhos suplicantes para o cรฉu, cรฉu este que nem queria mais contemplar.

Nรฃo sei se minha mente estava a pregar peรงas ou a me alertar, se o meu cansaรงo me traรญa ou me ajudava. Em questรฃo de segundos, por puro instinto, comecei a correr, mas de maneira displicente nรฃo fui muito longe, tropecei, no meio do caminho tinha uma pedra, tentei ficar de pรฉ, mas em vรฃo, nรฃo consegui conter a queda e me lancei em direรงรฃo as flores, belos montes de violetas e lavandas amorteceram meu corpo, jรก as pobres coitadas ficaram destruรญdas, despetaladas, com os ramos quebrados e as folhas caรญram no chรฃo. Consegui levantar, atordoado, pensei em praguejar e amaldiรงoar o lugar, mas eu nรฃo precisava, jรก era um local maldito sem o desejo de ninguรฉm. No entanto, depois desse evento, alguma coisa aconteceu.
Quase que imediatamente, uma forte ventania balanรงou tudo ao meu redor, me lanรงando em direรงรฃo a silhueta da casa e, tamanha a surpresa, a paisagem tinha mudado, finalmente avistei algo inรฉdito, o fim da alameda. Cheguei em um cรญrculo gramado e no meio um enorme arco gรณtico, esculpido e ornamentado com flores, embaixo, uma tรกvola redonda com vasos cheios de belรญssimas rosas. Seguindo o novo caminho, largo, delimitado por canteiros de murtas e com uma grande escadaria que descia em direรงรฃo a outro jardim, este parecia estar sobe os cuidados de alguรฉm e o melhor de tudo, a mansรฃo parecia estar mais prรณxima.
Os caminhos estavam bem definidos, de contornos rรญgidos com cercas vivas de formas geomรฉtricas planejadas, os arbustos compactos, perfeitamente cortados eram de um verde tรฃo escuro e denso que pareciam ter sidos pintados ร  mรฃo.

Nessa parte do jardim, ciprestes podados em triรขngulos agudos, surgindo mais ร  frente, bancos adornados com pedras pretas, colunas elevadas com os topos cobertos de rosas e grandes globos luminosos. As รบnicas coisas que restaram do jardim anterior foram as estรกtuas, mas estas eram maiores, mais bonitas e feitas de mรกrmore, corpos de mulheres de esplรชndida beleza em trajes cerimoniais e homens com grande estatura e mรบsculos aparentes, ao olhar atentamente para elas, percebei uma caracterรญstica das estรกtuas vistas no bosque, todas elas possuรญam semblante triste e desesperado, como se no momento em que foram esculpidas, estivessem olhando para a morte.
Os espaรงos a minha frente foram milimetricamente pensados, estava certo de que os monumentos foram construรญdos por mรฃos humanas, assim como a mansรฃo, fazendo com que os jardins fossem uma extensรฃo da casa, ela jรก aparecia alรฉm do contorno, tinha janelas imensas, adornadas por esculturas de pedra e com vidros completamente pretos, no entanto, ainda nรฃo conseguia ver como chegar atรฉ ela.
Os traรงados dos caminhos foram cobertos com cimento e placas de cerรขmica, delimitados por cercas vivas muito fortes, com estrutura lenhosas, feitas de viburno podado, formando um canteiro perfeito para a as flores, essas, bem diferentes, nรฃo cresciam mais sozinhas a esmo pelo chรฃo, foram escolhidas para harmonizar o espaรงo, para serem esculpidas e comportadas em cachepรดs, vasos decorados e canteiros de vรกrios metros de extensรฃo e altura. Rosas brancas, rosas do รฉden, amarelas e vermelhas, enormes e com espinhos maiores ainda, caules tรฃo verdes que nem se assemelhavam a algo natural, mas sim com estruturas de ferro e com folhas gigantescas.
No chรฃo um caminho inteiro revestido de amor-perfeito, tulipas amarelas, vermelhas e azuis formavam figuras geomรฉtricas, losangos, triรขngulos, cruzamentos, todos iam em direรงรฃo a uma grande fonte e no centro dela, um imenso chafariz de onde jorrava รกgua cristalina. Ao final de cada gigantesco retรขngulo havia pergolados com caramanchรตes no topo, eu ficava parado embaixo deles para tentar recuperar as forรงas, estava extremamente cansado, nรฃo tinha feito nada alรฉm de dar voltas nesse jardim de proporรงรตes colossais, sem nenhuma esperanรงa de conseguir sair.
Aquela poda escultural das vegetaรงรตes, a simetria, estavam me deixando enjoado, centenas de metros nessa perspectiva, em meio ร quela organizaรงรฃo, sem nada fora do lugar, como tudo aquilo estava tรฃo bem podado, aparado, vasos com arbustos completos, plantas amarradas em uma perfeiรงรฃo que me deixava agoniado, nรฃo existia nada, alรฉm de flores, vasos, canteiros, trilhas, encruzilhadas, fontes, estรกtuas, mas nenhuma simples formiga, centopeia ou lagarta passeava pelo chรฃo, o รบnico barulho que quebrava o silรชncio era a queda d’รกgua do chafariz.
Mesmo ao livre eu jรก estava sufocando, queria gritar, chamar alguรฉm, nรฃo tinha pensado nisso antes, tinha que chamar por socorro, as pessoas que cuidavam do jardim viriam me ajudar, gritei com as forรงas que me restavam, mas nรฃo veio uma sรณ alma. Mais uma vez comei a correr, apenas passando pelos caminhos intocados, sem defeitos, alรฉm de nunca ter conseguido ver alguma passagem para chegar atรฉ a casa, nรฃo tinha ponte, portรฃo, muro, nada alรฉm de arbustos grandes, apesar de parecer mais prรณxima desde quando comecei essa jornada, ela ainda estava inatingรญvel, parecia nรฃo existir ninguรฉm dentro da casa que pudesse me ver do lado de fora, infinitas janelas, mas nenhuma aberta, cercadas por vidros intransponรญveis, nada devia passar por eles, nem mesmo a minha imagem.
Entรฃo, veio a minha cabeรงa, uma ideia assustadora, um temor percorreu todo o meu corpo, se estava preso aqui fora sem ninguรฉm na casa para me ver e ouvir, talvez, pessoas lรก dentro estivessem presas tambรฉm. E eu como um louco querendo entrar. Nรฃo havia outra explicaรงรฃo, empregados deviam receber ordens para deixarem as pessoas presas, sim, essa casa teria que ter empregados, alguรฉm deveria ser encarregado de cuidar dessas malditas flores, podar os arbustos e limpar a fonte.
Comemorei cedo demais, o sentimento de derrota tomava conta de tudo, mais uma vez fiquei desnorteado, nรฃo entendo como vim parar nessa situaรงรฃo, nรฃo me lembrava se alguรฉm me trouxera atรฉ aqui ou se fui convidado e vim de espontรขnea vontade. Nรฃo tinha mais forรงas, caรญ de joelhos e sem querer voltei a olhar para o cรฉu, agora mudado, o sol enfim estava se pondo, a lua brilhava esplendorosa, como um pincel descarregando a tinta na รกgua e os traรงos pretos azulados da noite empurravam os รบltimos raios vermelhos para o oeste pintando constelaรงรตes magnรญficas por todo o cรฉu.

Tal cena ficou impressa nos meus olhos, presa para sempre em minha mente, nรฃo permitiria mais que o pavor e o medo me controlassem, mesmo nรฃo querendo, a casa era o รบnico lugar para o qual poderia ir.  Comecei a pensar no que poderia ter me feito sair do outro jardim. Depois de caminhar por horas e ver as mesmas coisas passarem centenas de vezes, o รบnico acontecimento diferente foi ter tropeรงado e caรญdo sobre os arbustos e estragar algumas flores. Quem sabe o fato de ter alterado o estado “perfeito” das coisas, tivesse perturbado a entidade que mora aqui e que tenha montado tudo isso, pois somente um ser de outro mundo para fazer essas coisas sem a presenรงa de outras pessoas. Talvez ela nรฃo gostasse que mexessem nas suas flores e estragassem seu trabalho, ficaria furiosa se pisassem na grama tรฃo bem cortada e arrancassem as plantas de seus vasos. Eu poderia estar apenas tendo pensamentos loucos, mas eu nรฃo tinha mais nada a fazer a nรฃo ser tentar.
Sendo assim, saรญ correndo pela grama, com chutes, arranquei vรกrios tufos, fazendo inรบmeros buracos, joguei terra pelo belo caminho polido, tirei vรกrios picos dos ciprestes podados, pisei nas azaleias, amassei as tulipas, subi nos canteiros pisoteando as murtas com toda forรงa, escalei as pรฉrgolas e puxei os caramanchรตes, me transformei no vento forte que eu queria que aparecesse e me levasse embora.
O que mais chamava atenรงรฃo nesse jardim com certeza eram as rosas, parti enraivecido para cima de todas que encontrei, com elas destruรญdas, certamente alguรฉm viria e eu aproveitaria a oportunidade para fugir. Derrubei dezenas de vasos, as rosas caรญam aos montes pelo chรฃo, pisei nos ramos, arranquei pรฉtala por pรฉtala, rasgava e picava as folhas em milhares de pedaรงos, minha fรบria era tanta que nem percebi que enquanto atacava era tambรฉm golpeado, os espinhos furaram cada centรญmetro das minhas mรฃos, meus braรงos, pescoรงo e rosto foram cortados, o sangue manchava minhas roupas, caรญa nas rosas e pingava pelo caminho, mesmo depois de tudo isso nada aconteceu.

Eu estava ofegante, desesperado, cansado e sangrando tambรฉm, senti o gosto de sangue descer pela garganta, eu iria morrer naquele lugar, envenenado pelos espinhos das roseiras. Esgotado, olhei para a casa que nunca alcancei, nem saberia se estaria a salvo se chegasse atรฉ ela, jรก desorientado, caminhei lentamente atรฉ a fonte no centro, morreria, mas tinha feito um belo trabalho destruindo aquele jardim amaldiรงoado, entrei na fonte, manchei a รกgua lรญmpida com meu sangue, estendi minhas mรฃos atรฉ o chafariz, aparei a รกgua e bebi, os goles pareciam infinitos, como se fosse a รบltima vez que tomava o elixir da vida, tirei minhas vestes e me banhei na fonte com รกgua tingida de vermelho.
Meu corpo ficaria preso junto as estรกtuas para sempre, minha mente em devaneio pensava que talvez elas tivessem sido pessoas reais antes de tudo, desistiram de procurar uma saรญda e morreram. Como em um รบltimo ato de uma รณpera que termina em tragรฉdia, mergulhei esperei pelo meu fim, mas ao invรฉs de sentir a morte se aproximar, o que eu vi parecia ser um milagre, cristais emergiram e brilhavam na superfรญcie da รกgua, puxando o รบltimo ar de meus pulmรตes, me levantei, senti uma brisa leve a soprar e tocar meu rosto molhado, a lua pairava a cima da mansรฃo, ao olhar para a casa, todas as janelas estavam se abrindo, raios de uma luz extremamente branca emanavam do interior, duas grandes portas se abriram e diante delas uma passarela de mรกrmore ia surgindo, possuรญa  dezenas de metros e chegava atรฉ a fonte, atรฉ mim.
Nรฃo acreditava no que estava vendo, mesmo assim nรฃo pensei em mais nada a nรฃo ser levantar e ir em direรงรฃo a porta, me debrucei sobre o beiral, fiz uma forรงa sobre-humana para sair da fonte. Cambaleante, andei pela passagem e chegando enfim diante das portas abertas, entrei.

Eu estava ofegante, desesperado, cansado e agora sangrando tambรฉm, senti o gosto de sangue descer pela garganta, eu iria morrer nesse lugar, envenenado pelos espinhos das roseiras. Esgotado, olhei para a casa que nunca alcancei, nem saberia se me salvaria se chegasse atรฉ ela, jรก desorientado, caminhei lentamente atรฉ a fonte no centro, morreria, mas tinha feito um belo trabalho destruindo aquele maldito jardim, entrei na fonte, manchei a รกgua lรญmpida com meu sangue, estendi minhas mรฃo atรฉ o chafariz e aparei um pouco d’รกgua e bebi, goles infinitos de รกgua, como se fosse a รบltima vez que tomava o lรญquido dava a vida, tirei minhas vestes e me banhei na fonte, agora com a รกgua tingida de vermelho.

Como em รบltimo ato de uma รณpera que termina em tragรฉdia, esperei pelo meu fim, mas ao invรฉs de ver a morte se aproximar, o que eu vi parecia ser um milagre, senti uma brisa leve tocar meu rosto, a lua pairava em cima da mansรฃo, ao olhar para a casa, todas as suas janelas estavam se abrindo, no interior, luzes comeรงaram as surgir e como por puro encanto, duas grandes portas se abriram e diante delas uma passarela era feita instantaneamente e chegava atรฉ a fonte, atรฉ mim.

Nรฃo acreditava no que estava vendo, mas mesmo assim nรฃo pensei em mais nada a nรฃo ser levantar e ir em direรงรฃo a porta. Cambaleante, me debrucei sobre o beiral, fiz uma forรงa sobre-humana, saรญ da fonte e caminhei pela passagem, cheguei atรฉ as portas abertas e entrei.

O Jardim da Casa Desconhecida

Evelyn Veiga

6 de outubro de 2020

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Toda tarde, quando vinham da escola, as crianรงas costumavam brincar no jardim do Gigante.Era um jardim grande e gracioso, com grama verde e macia. Aqui e ali, sobre a grama, destacavam-se flores lindas como estrelas, e havia doze pessegueiros que, na primavera, desabrochavam em delicadas flores em tons de rosa e pรฉrola, e no outono davam frutos deliciosos. Os pรกssaros pousavam nas รกrvores e cantavam com tanta doรงura que as crianรงas costumavam parar as brincadeiras para ouvi-los.
— Como somos felizes aqui! — gritavam umas para as outras.
Um dia, o Gigante voltou. Ele fora visitar um amigo, o ogro da Cornualha, e ficara com ele por sete anos. Terminados os sete anos, ele havia dito tudo o que tinha a dizer, pois seu assunto era limitado, e decidiu voltar ao prรณprio castelo. Quando chegou, viu as crianรงas brincando no jardim.
— O que estรฃo fazendo aqui? — gritou com uma voz muito รกspera, e as crianรงas fugiram.
— Meu jardim รฉ meu jardim — disse o Gigante. — Qualquer um consegue entender isso, e nรฃo vou deixar que ninguรฉm alรฉm de mim brinque nele.
Entรฃo, ele construiu um muro alto ao redor do jardim e colocou uma placa de advertรชncia.
Invasores serรฃo castigados!
Era um Gigante muito egoรญsta.
As pobres crianรงas nรฃo tinham mais onde brincar. Tentaram brincar na estrada, mas era muito poeirenta e cheia de pedras duras, e elas nรฃo gostaram. Costumavam passear em torno do muro alto quando as aulas terminavam, conversando sobre o belo jardim lรก dentro.
— Como รฉramos felizes lรก — diziam umas ร s outras.
Entรฃo chegou a Primavera, e em todo o paรญs havia florzinhas e passarinhos. Somente no jardim do Gigante Egoรญsta ainda era Inverno. Os pรกssaros nรฃo queriam cantar lรก porque nรฃo havia crianรงas, e as รกrvores se esqueceram de florescer. Um dia, uma linda flor ergueu a cabeรงa da grama, mas, quando viu a placa de advertรชncia, teve tanta pena das crianรงas que se recolheu de volta ร  terra e foi dormir. As รบnicas pessoas que ficaram satisfeitas foram a Neve e a Geada.
— A Primavera esqueceu este jardim — gritaram elas —, entรฃo vamos morar aqui o ano todo.
A Neve cobriu a grama com seu grande manto branco e a Geada pintou todas as รกrvores de prata. Depois, convidaram o Vento Norte para ficar com elas, e ele veio. Estava envolto em peles, rugiu o dia inteiro pelo jardim e derrubou os chapรฉus das chaminรฉs.
— Que lugar encantador — disse ele —, precisamos convidar o Granizo para nos visitar.
Entรฃo o Granizo veio. Todos os dias, por trรชs horas, ele sacudia o telhado do castelo atรฉ quebrar a maior parte das telhas de ardรณsia, depois corria por todo o jardim o mais rรกpido que conseguia. Vestia cinza e seu hรกlito era como gelo.
— Nรฃo consigo entender por que a Primavera estรก tรฃo atrasada — disse o Gigante Egoรญsta, sentado ร  janela, olhando para o jardim branco e frio. — Tomara que o tempo mude.
Mas a Primavera nunca veio, nem o Verรฃo. O Outono deu frutos dourados a todos os jardins, mas, ao jardim do Gigante, nรฃo deu nenhum.
— Ele รฉ muito egoรญsta — disse o Outono.
Por isso, era sempre Inverno lรก, e o Vento Norte, o Granizo, a Geada e a Neve danรงavam entre as รกrvores.
Uma manhรฃ, o Gigante estava deitado acordado na cama quando ouviu uma linda mรบsica. Soou tรฃo doce aos seus ouvidos que ele pensou que deviam ser os mรบsicos do Rei a passar. Na verdade, era sรณ um pequeno pintarroxo cantando do lado de fora da janela, mas fazia tanto tempo desde que o Gigante ouvira um pรกssaro cantar em seu jardim que parecia a mรบsica mais bonita do mundo. Entรฃo o Granizo parou de danรงar sobre a cabeรงa dele, e o Vento Norte deixou de rugir, e um perfume delicioso o alcanรงou atravรฉs da janela aberta.
— Creio que a Primavera finalmente chegou — disse o Gigante, pulou da cama e olhou para fora.
O que ele viu?
Teve uma visรฃo magnรญfica. Atravรฉs de um pequeno buraco no muro, as crianรงas haviam entrado e estavam sentadas nos galhos das รกrvores. Em todas as รกrvores que ele podia ver havia uma criancinha. E as รกrvores ficaram tรฃo felizes por ter as crianรงas de volta que se cobriram de flores e balanรงaram os braรงos delicadamente acima da cabeรงa dos pequeninos. Os pรกssaros voavam e gorjeavam com prazer, e as flores espiavam por entre a grama verde e riam. Era uma cena adorรกvel, mas num canto ainda era Inverno. Era o canto mais distante do jardim, e nele havia um garotinho. Era tรฃo pequeno que nรฃo conseguia alcanรงar os galhos da รกrvore e vagava em torno dela, chorando amargamente. A pobre รกrvore ainda estava muito coberta de Geada e Neve, e o Vento Norte soprava e rugia acima dela.
— Suba, garotinho! — disse a รrvore, e inclinou os galhos o mais baixo que pรดde; mas o menino era pequeno demais.
E o coraรงรฃo do Gigante se derreteu enquanto ele olhava para fora.
— Como fui egoรญsta! — disse ele. — Agora sei por que a Primavera nรฃo veio para cรก. Vou colocar aquele pobre garotinho no alto da รกrvore e depois derrubar o muro, e meu jardim serรก o parquinho das crianรงas para sempre.
Ele realmente lamentava muito o que havia feito. Assim, desceu a escada, abriu a porta da frente delicadamente e saiu para o jardim. Mas, quando as crianรงas o viram, tiveram tanto medo que fugiram, e o jardim voltou a ser Inverno. Sรณ o garotinho nรฃo correu, pois seus olhos estavam tรฃo tomados de lรกgrimas que ele nรฃo viu o Gigante chegar. E o Gigante aproximou-se por trรกs dele e o pegou gentilmente na mรฃo, e o colocou no alto da รกrvore. E nesse instante a รกrvore abriu todas as suas flores, e os pรกssaros vieram e cantaram nela, e o garotinho esticou os braรงos, lanรงando-os ao redor do pescoรงo do Gigante, e o beijou. E as outras crianรงas, quando viram que o Gigante nรฃo era mais malvado, voltaram correndo, e com elas veio a Primavera.
— Agora o jardim รฉ seu, pequeninos — disse o Gigante. Pegou um grande machado e derrubou o muro.
E quando as pessoas foram ao mercado, ร s doze horas, encontraram o Gigante brincando com as crianรงas no jardim mais bonito que jรก tinham visto.
Durante todo o dia elas brincaram. ร€ noite, foram se despedir do Gigante.
— Mas onde estรก seu coleguinha? — perguntou ele. — O garoto que eu coloquei na รกrvore.
O Gigante amava mais esse menino porque ele o beijara.
— Nรฃo sabemos — responderam as crianรงas. — Ele foi embora.
— Vocรชs devem dizer a ele para vir aqui amanhรฃ com certeza — disse o Gigante. Mas as crianรงas disseram que nรฃo sabiam onde ele morava e nunca o tinham visto antes; o Gigante ficou muito triste.
Toda tarde, quando as aulas terminavam, as crianรงas vinham brincar com o Gigante. Mas ninguรฉm nunca mais viu o menino que ele amava. O Gigante era muito gentil com todas as crianรงas, porรฉm tinha saudades do seu primeiro amiguinho e sempre falava dele.
— Como eu gostaria de vรช-lo! — dizia com frequรชncia.
Os anos se passaram e o Gigante ficou muito velho e frรกgil. Nรฃo conseguia mais brincar, por isso, sentava-se numa enorme poltrona, observava as crianรงas em suas brincadeiras e admirava o jardim.
— Tenho muitas flores bonitas — dizia ele. — Mas as crianรงas sรฃo as flores mais lindas de todas.
Numa manhรฃ de inverno, ele olhou pela janela enquanto se vestia. Agora, nรฃo detestava o Inverno, pois sabia que era apenas a Primavera adormecida e que as flores estavam descansando.
De repente, esfregou os olhos, admirado, e olhou e olhou. Com certeza era uma visรฃo maravilhosa. No canto mais distante do jardim, havia uma รกrvore coberta de lindas flores brancas. Seus galhos eram todos dourados, e frutas prateadas pendiam deles, e embaixo dela estava o menino que ele havia amado.
Para o andar de baixo correu o Gigante com grande alegria e sa­iu para o jardim. Correu pela grama e se aproximou da crianรงa. E, quando chegou bem perto, seu rosto ficou vermelho de raiva e ele disse:
— Quem se atreveu a ferir-te? — Pois na palma das mรฃos da crianรงa havia a marca de dois pregos, e marcas iguais em seus pezinhos. — Quem se atreveu a ferir-te? — gritou o gigante. — Dize-me, que eu hei de pegar minha grande espada e matรก-lo.
— Nรฃo! — respondeu a crianรงa. — Mas estas sรฃo as feridas do Amor.
— Quem รฉs tu? — perguntou o Gigante, e foi tomado por uma estranha reverรชncia, e se ajoelhou diante da crianรงa.
E a crianรงa sorriu para o Gigante e disse:
— Um dia, vocรช me deixou brincar no seu jardim; hoje, virรก comigo ao meu jardim, que รฉ o Paraรญso.
E, quando as crianรงas correram naquela tarde, encontraram o Gigante morto debaixo da รกrvore, todo coberto de flores brancas.

Audioconto Narrado por Guilherme Briggs

O narrador de O Gigante Egoรญsta รฉ Guilherme Briggs, ator, dublador, diretor de dublagem, locutor, tradutor, desenhista, youtuber e blogueiro brasileiro. Foi a voz de Buzz Lightyear, de Toy Story, Geralt de Rivia, na sรฉrie da Netflix The Witcher, Mickey Mouse (desde 2009), Cosmo, de Os Padrinhos Mรกgicos, Superman em A Liga da Justiรงa e dezenas de outros personagens amados da cultura pop. O tom grave da voz do Gigante foi criada pelo prรณprio dublador e o conto foi escolhido para explorar seu icรดnico timbre. 

Sobre o Autor
OSCAR WILDE era um alto e simpรกtico escritor nascia em 1854, em Dublin. Wilde, que mais tarde ficaria conhecido por suas obras O Retrato de Dorian Gray e O Fantasma de Canterville, era orgulhoso de sua terra natal, a Irlanda. 
Escreveu o livro The Happy Prince and other Fairy Tales em 1888, de onde O Gigante Egoรญsta foi traduzido. O conto, tรฃo famoso que ganhou uma animaรงรฃo em 1972, conta sobre um gigante que nรฃo queria crianรงas em seu jardim. Porรฉm, durante um longo inverno, seu coraรงรฃo comeรงa a amolecer, atรฉ que uma das crianรงas realmente toca sua bondosa alma. A histรณria pode ser vista como um encontro gentil entre o paganismo celta e o cristianismo na Irlanda e em terras gaรฉlicas. 
O cristianismo cรฉltico comeรงou no sรฉculo V e tinha tradiรงรตes รบnicas, diferentes das romanas. Como o prรณprio autor nรฃo se considerava catรณlico atรฉ horas antes de sua morte, รฉ possรญvel que este conto seja tambรฉm uma homenagem ร  sua mรฃe, Lady Wilde. De toda forma, a histรณria de redenรงรฃo e amor do Gigante tornou este conto um clรกssico de Wilde.