1 - O Corvo (The Raven)
E o corvo, na noite infinda, estรก ainda, estรก ainda
No alvo busto de Atena que hรก por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demรดnio que sonha,
E a luz lanรงa-lhe a tristonha sombra no chรฃo hรก mais e mais,
Libertar-se-รก… nunca mais!
– Traduรงรฃo de Fernando Pessoa
No alvo busto de Atena que hรก por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demรดnio que sonha,
E a luz lanรงa-lhe a tristonha sombra no chรฃo hรก mais e mais,
Libertar-se-รก… nunca mais!
– Traduรงรฃo de Fernando Pessoa
2 – Annabel Lee
“Porque os luares tristonhos sรณ me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares sรณ me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim ‘stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pรฉ do mar,
Ao pรฉ do murmรบrio do mar.”
– Traduรงรฃo de Fernando Pessoa
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares sรณ me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim ‘stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pรฉ do mar,
Ao pรฉ do murmรบrio do mar.”
– Traduรงรฃo de Fernando Pessoa
3 – Sozinho (Alone)
Nos tempos de infรขncia nunca vi
Como os outros — nunca vivi
Como os outros — nem pude pegar
Paixรตes de uma fonte vulgar –
Dela nunca pude revolver
Minha tristeza — nem comover
Meu coraรงรฃo no mesmo caminho –
E tudo que amei — amei sozinho –
Como os outros — nunca vivi
Como os outros — nem pude pegar
Paixรตes de uma fonte vulgar –
Dela nunca pude revolver
Minha tristeza — nem comover
Meu coraรงรฃo no mesmo caminho –
E tudo que amei — amei sozinho –
4 – Demรดnio da Perversidade (Imp of the Perverse)
“Nรฃo hรก na natureza paixรฃo mais diabolicamente impaciente como a daquele que, tremendo ร beira dum precipรญcio, pensa dessa forma em nele se lanรงar. Deter-se, um instante que seja, em qualquer concessรฃo a essa ideia รฉ estar inevitavelmente perdido, pois a reflexรฃo nos ordena que fujamos sem demora e, portanto, digo-o, รฉ isto mesmo que nรฃo podemos fazer. Se nรฃo houver um braรงo amigo que nos detenha, ou se nรฃo conseguirmos, com sรบbito esforรงo recuar da beira do abismo, nele nos atiraremos e destruรญdos estaremos. Examinando aรงรตes semelhantes, como fazemos, descobriremos que elas resultam tรฃo-somente do espรญrito de Perversidade. Nรณs as cometemos porque sentimos que nรฃo deverรญamos fazรช-lo.”
5 – O Coraรงรฃo Denunciador (The Tell-tale heart)
“Ouvi todas as coisas no cรฉu e na terra. Ouvi muitas coisas no inferno. Como entรฃo posso estar louco?” […]
“Eles estavam zombando do meu horror! — Assim pensei e assim penso. Mas qualquer coisa seria melhor do que essa agonia! Qualquer coisa seria mais tolerรกvel do que esse escรกrnio. Eu nรฃo poderia suportar por mais tempo aqueles sorrisos hipรณcritas! Senti que precisava gritar ou morrer! — e agora — de novo — ouรงa! mais alto! mais alto! mais alto! mais alto!
— Miserรกveis! — berrei — Nรฃo disfarcem mais! Admito o que fiz! – levantem as tรกbuas! — aqui, aqui! — sรฃo as batidas deste horrendo coraรงรฃo!”
“Eles estavam zombando do meu horror! — Assim pensei e assim penso. Mas qualquer coisa seria melhor do que essa agonia! Qualquer coisa seria mais tolerรกvel do que esse escรกrnio. Eu nรฃo poderia suportar por mais tempo aqueles sorrisos hipรณcritas! Senti que precisava gritar ou morrer! — e agora — de novo — ouรงa! mais alto! mais alto! mais alto! mais alto!
— Miserรกveis! — berrei — Nรฃo disfarcem mais! Admito o que fiz! – levantem as tรกbuas! — aqui, aqui! — sรฃo as batidas deste horrendo coraรงรฃo!”
6 – William Wilson
“Era Wilson, mas Wilson sem mais sussurrar agora as palavras, tanto que teria sido possรญvel acreditar que eu prรณprio falava, quando ele me disse:
– Venceste e eu me rendo. Mas, de agora em diante, tambรฉm estรกs morto… morto para o Mundo, para o Cรฉu e para a Esperanรงa! Em mim tu existias… e vรช em minha morte, vรช por esta imagem, que รฉ a tua, como assassinaste absolutamente a ti mesmo.”
– Venceste e eu me rendo. Mas, de agora em diante, tambรฉm estรกs morto… morto para o Mundo, para o Cรฉu e para a Esperanรงa! Em mim tu existias… e vรช em minha morte, vรช por esta imagem, que รฉ a tua, como assassinaste absolutamente a ti mesmo.”
7 – O Enterro Prematuro
“Hรก momentos em que, mesmo aos olhos serenos da razรฃo, o mundo de nossa triste Humanidade pode assumir o aspecto de um inferno, mas a imaginaรงรฃo do homem nรฃo รฉ Carathis para explorar impunemente todas as suas cavernas. Ah! A horrenda regiรฃo dos terrores sepulcrais nรฃo pode ser olhada de modo tรฃo completamente fantรกstico, mas, como os Demรดnios em cuja companhia Afrasiab fez sua viagem atรฉ o Oxus, eles devem dormir ou nos devorarรฃo, devem ser mergulhados no sono ou nรณs pereceremos.”
8 – A Queda da Casa de Usher
“Durante todo um dia pesado, escuro e mudo de outono, em que nuvens baixas amontoavam-se opressivamente no cรฉu, eu percorri a cavalo um trecho de campo singularmente triste, e finalmente me encontrei, quando as sombras da noite se avizinhavam, ร vista da melancรณlica Casa de Usher. Nรฃo sei como foi – mas, ao primeiro olhar que lancei ao edifรญcio, uma sensaรงรฃo de insuportรกvel angรบstia invadiu o meu espรญrito. Digo insuportรกvel, pois tal sensaรงรฃo nรฃo foi aliviada por nada desse sentimento quase agradรกvel na sua poesia, com o qual a mente ordinariamente acolhe mesmo as imagens mais cruรฉis por sua desolaรงรฃo e seu horror.”
09 – Berenice
“Desviei involuntariamente a vista daquele olhar vรญtreo para olhar-lhe os lรกbios delgados e contraรญdos. Entreabriram-se e, num sorriso bem significativo, os dentes da Berenice transformada se foram lentamente mostrando. Prouvera a Deus que eu nunca os tivesse visto, tendo-os visto, tivesse morrido! […] Os dentes!. . . Os dentes! Estavam aqui e ali e por toda parte, visรญveis, palpรกveis. Diante de mim. Compridos, estreitos e excessivamente brancos, com os pรกlidos lรกbios contraรญdos sobre eles, como no instante mesmo do seu primeiro e terrรญvel crescimento. Entรฃo desencadeou-se a plena fรบria minha monomania e em vรฃo lutei contra sua estranha e irresistรญvel influรชncia. Nos mรบltiplos objetos do mundo exterior, sรณ pensava naqueles dentes. Queria-os com frenรฉtico desejo. Todos os assuntos e todos os interesses diversos foram absorvidos por aquela exclusiva contemplaรงรฃo.”
10 – Um sonho dentro de um sonho (A Dream within a Dream)
TAMERLรO
Doce consolaรงรฃo nesta hora extrema!
Tal, Padre, agora nรฃo serรก meu tema...
Nรฃo direi loucamente que um poder
terreno me liberte do pecado
sรดbre-humano de orgulho, em mim a arder.
O tempo de sonhar รฉ jรก passado:
Dizes que isso รฉ esperanรงa; e a desvairada
chama รฉ sรณ a agonia de um anseio!
Se creio na Esperanรงa... ร Deus! Bem creio...
Sua fonte รฉ mais divina, mais sagrada...
Anciรฃo louco eu nรฃo quero te chamar,
mas isso รฉ coisa que nรฃo podes dar.
Conheces de um espรญrito o segrรชdo,
da soberba atirado em plena lama?
Herdei, รณ coraรงรฃo a palpitar,
teu quinhรฃo de desprรชzo, com a fama,
a glรณria consumida, a cintilar
de meu trono entre as jรณias, qual coroa
infernal. Porque dor alguma o inferno
pode agora trazer, que me dรช mรชdo.
E anseias pelas flores, coraรงรฃo,
e pelo sol das horas de verรฃo!
Dรชsse tempo defunto o canto eterno,
com seu soluรงo intรฉrmino, reboa,
em teu vazio, nos sons enfeitiรงados
de um dobre doloroso de finados.
Do que hoje sou, jรก fui bem diferente.
Usurpador, obtive, conquistei
o diadema que cinge a fronte ardente.
Roma e Cรฉsar nรฃo deu a mesma ousada
heranรงa, que me estava reservada?
A heranรงa de um espรญrito de rei,
para lutar, espรญrito altaneiro,
triunfalmente, contra o mundo inteiro.
Em regiรฃo montanhosa ao mundo vim.
As brumas de Taglay pulverizavam,
ร noite, o seu orvalho sรดbre mim,
e acredito que as asas, em violentos
tumultos, e as tormentas, e os mil ventos,
em meus prรณprios cabelos se aninhavam.
รsse orvalho, depos, do cรฉu tombando
(entre noites de sonhos condenados)
era um toque de inferno sรดbre mim,
enquanto rubras luzes, cintilando
em nuvens, que oscilavam quais pendรตes,
pareciam-me, aos olhos malcerrados,
do poder rรฉgio as predestinaรงรตes,
e dos trovรตes profundos o clarim
sรดbre mim se atirava, proclamando
que, em humanas batalhas, estentรณrea
– crianรงa louca! – a minha voz bradava
(como minha ala se regozijava
e ante รชsse grito o coraรงรฃo saltava!)
o grito de combate da Vitรณria!
Na fronte sem abrigo se esparzia
a chuva rude, e o vento me tornava
desatinado, cego, ensurdecido.
Era apenas um ente que lanรงava
louros em mim, pensava entรฃo, e a fria
fรบria do ar fustigante, a meus ouvidos
cantava a evocaรงรฃo de destroรงados
impรฉrios, o clamor dos capturados,
o rumor dos cortejos, a canรงรฃo
com que aos tronos rodeia a adulaรงรฃo.
Minhas paixรตes, desde รชsse infausto dia,
sรดbre mim exerceram tirania
tamanha, que, somente com o poder,
se pรดde o meu carรกter conhecer.
Mas, Padre, entรฃo, ali vivia alguรฉm...
entรฃo... na juventude... quando a chama
das paixรตes mais se alteia e mais se inflama
(porque paixรตes sรณ a juventude tem),
alguรฉm que soube ver, no peito de aรงo,
de uma fraqueza feminil o traรงo.
Nรฃo tenho tรชrmos... ai... para dizer
o quanto รฉ doce o verdadeiro amor!
Nem tentarei agora descrever
dessa face lindรญssima o primor,
pois seus contornos sรฃo, na minha mente,
sombras que ao vento vรฃo, volรนvelmente.
Recordo ter-me outrora debruรงado
sรดbre folhas de ciรชncia do Passado,
atรฉ que cada letra, tรฃo fitada,
e cada tรชrmo se desvanecesse
e seu prรณprio sentido se perdesse
em fantasias e, por fim, em nada.
Ah! todo o amor bem elas merecia
e era o meu afeto qual de crianรงa.
Razรฃo tinham os anjos de a invejar.
Seu jovem coraรงรฃo era um altar
em que meus pensamentos e a esperanรงa
eram o incenso, a oferta que subia
com pureza infantil, imaculada,
de seu jovem modรชlo copiada.
Por que os abandonei, pela paixรฃo
da luz, que inflama e empolga o coraรงรฃo?
Crescemos... e conosco o amor crescia...
vagueando na floresta e nos desertos.
Na tormenta meu peito a protegia
e quando, amiga, a luz do sol sorria.
E se ela contemplava os cรฉus abertos,
sรฒmente em seu olhar os cรฉus eu via.
A primeira liรงรฃo do amor nascente
estรก no coraรงรฃo, pois, sob o ardente
sol, vendo รชsses sorrisos sem cuidados,
rindo de seus brinquedos estouvados,
eu me lanรงava no seu seio arfante
e em lรกgrimas minha alma se expandia.
Ah! dizer mais eu nรฃo precisaria,
nem acalmar temores vรฃos, perante
quem ficava, sem nada perguntar,
voltando para mim o quieto olhar.
E embora merecesse mais que o amor,
a minha alma impaciente se exaltava
quando, num cume de montanha, a sรณs,
a ambiรงรฃo lhe falava em nova voz.
Todo o meu ser sรณ nela consistia;
o mundo e tudo quanto รชle encerrava,
na terra, no ar, nos mares, a alegria,
os quinhรตes pequenรญssimos de dor,
que eram nรดvo prazer, os ideais,
noturnos sonhos de vaidade impura,
e as coisas mais sombrias, porque reais
(as sombras... e uma luz bem mais obscura!)
nas asas do nevoeiro se evolavam
e assim confusamente se tornavam
numa imagem, num nome... um nome... duas
coisas, unificadas, porque tuas.
Eu era ambicioso. Jรก tiveste
paixรตes, Padre? Nรฃo! Nรฃo as conheceste!
Um trono para mim, filho do lรดdo,
que o mundo dominasse quase todo,
sonhei, a maldizer a minha sorte.
Mas, como todo sonho, tambรฉm รชste,
sob o vapor do orvalho, voaria,
nรฃo viesse da beleza o brilho forte
que o cumulava, ainda que, se tanto,
por um minuto, por uma hora, um dia
pesar-me na alma com dobrado encanto.
E passeรกvamos juntos, pela crista
de elevada montanha, donde a vista
caรญa, dos penhascos escarpados
e altivos, das florestas, nos outeiros
esparsos, de bosquetes coroados,
rumorejando com seus mil ribeiros.
Falava de poder e de vaidade,
porรฉm mรฌsticamente, que a verdade
a ela eu nรฃo queria revelar
no que dizia; e entรฃo, em seu olhar,
talvez eu lesse, descuidadamente,
um sentimento, do meu prรณprio irmรฃo.
O brilho de suas faces parecia,
para mim, transformar-se em refulgente
trono; e eu consentir nรฃo poderia
que elas brilhassem sรณ na solidรฃo.
De grandezas entรฃo eu me envolvia
tomando uma fantรกstica coroa;
e nรฃo era, contudo, a Fantasia
que seu manto viera em mim lanรงar.
E se entre a humanidade, a turba alvar,
รฉ o leรฃo da ambiรงรฃo, que se agrilhoa,
entregue ร mรฃo de um domador que o mande,
nรฃo รฉ assim no deserto; lรก, o que รฉ grande
conspira com o terrรญvel e o sem-par
para as almas com o sรดpro incendiar.
Contempla Samarkand! Contempla-a agora!
Nรฃo รฉ rainha da terra e se alcandora
sรดbre as cidades tรดdas? Nรฃo lhes traz
os destinos na mรฃo? E nรฃo desfaz,
solitรกria e fidalga, tudo quanto
de glรณria e fama neste mundo medra?
Se cair, sua mais humilde pedra
hรก de formar de um trono o pedestal.
Quem รฉ seu soberano? Tamerlรฃo.
รsse que os povos viram, com espanto,
subir, calcando aos pรฉs cada naรงรฃo,
um bandido com a coroa real!
ร amor humano! Tu, que dรกs, no mundo,
o que esperamos vir do cรฉu profundo;
que cais na alma, qual chuva abenรงoada
sรดbre a planรญcie adusta e calcinada;
e, nรฃo podendo dar ventura, fazes
do coraรงรฃo deserto sem oรกsis;
tu, idรฉia que tรดda a vida encerra
em mรบsica de sons tรฃo singulares
e belos, que na selva tรชm seus lares,
adeus! adeus! pois conquistei a Terra!
Quando a Esperanรงa, essa รกguia da amplidรฃo,
os altos cimos jรก nรฃo mais avista,
suas asas se curvam, de mansinho,
e o olhar se volta, doce, para o ninho.
Era o sol-pรดr; e quando o sol declina
um desespรชro sobe ao coraรงรฃo
de quem ainda quisera ter ร vista
o esplendor estival da luz solar.
A alma aspira a bruma vespertina,
tรฃo cariciosa, atenta a perceber
o som da treva (ouvido sempre pelos
que sabem dar-lhe ouvido) a se arrastar,
como quem quer, em meio a pesadelos,
fugir de algum perigo, sem poder.
Que importa brilhe a lua, a lua fria
com seu fulgor mais lรบcido e mais forte?
Seu sorriso e seu brilho sรฃo gelados,
naquelas horas de melancolia,
como um retrato feito apรณs a morte
(vendo-o, nem respiramos, assustados).
E a juventude รฉ como um sol de estio,
cujo poente รฉ o mais triste, porque entรฃo
jรก nada mais ignora o coraรงรฃo
e o que guardar quisemos no fugiu.
Pareรงa a vida, pois, qual flor de um dia,
com a beleza que, esplรชndida, irradia.
Voltei para o meu lar, nรฃo mais meu lar,
pois tudo o que fazia assim se fora.
Penetrei no musgoso umbral e embora
fรดsse meu passo lento e comedido
veio uma voz da pedra do limiar,
a voz de alguรฉm que u conhecera outrora.
Oh! desafio o inferno a que apresente,
nos seus leitos de fogo, mais ferido
coraรงรฃo, ou desgraรงa mais pungente!
Eu creio, Padre, eu firmemente creio,
e bem sei – pois a morte, que me veio
da longรญnqua regiรฃo abenรงoada
onde nรฃo mais existem ilusรตes,
vai entreabrindo os rรญgidos portรตes
e cintilam os raios da verdade,
que nรฃo vรชs, atravรฉs da Eternidade...
Sim, eu creio que Eblis pรดsto havia
sua armadilha, sob a humana estrada.
E se nรฃo, por que, quando eu me perdia
no bosque santo dรชsse รญdolo, o Amor,
de asas de eneve sempre perfumadas
com o incenso das ofertas mais sagradas,
no bosque iluminado intensamente
pelos raios do cรฉu, nesse bosque onde
nenhum ser, por mais รญnfimo, se esconde
a seu olhar de รกguia, abrasador,
por que, entรฃo, a ambiรงรฃo se insinuou,
sem ser vista, entre os sonhos, a crescer,
atรฉ lanรงar-se, a rir, ousadamente,
nas madeixas do Amor, do prรณprio Amor?
UM SONHO
SONHEI, entre visรตes da noite escura,
com a alegria morta, mas meu sonho
de vida e luz me despertou, tristonho,
com o coraรงรฃo partido de amargura.
Ah! que nรฃo vale um sonho ร luz do dia
para aquรชle que os olhos traz cravados
nas coisas que o rodeiam e os desvia
para tempos passados?
Aquรชle santo sonho, sonho santo,
enquanto o mundo repelia o pรกria,
deu-me o confรดrto, como luz de encanto
a conduzir uma alma solitรกria.
E embora a luz, por entre a tempestade
e a noite, assim tremesse, tรฃo distante,
que poderia haver de mais brilhante
no claro sol da estrela da Verdade?





